Ai, Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?
É nestas alturas que penso na eleição do Mestre de Avis. O povo das crónicas de Fernão Lopes é o mesmo que hoje esteve em Lisboa, no Porto, em Leiria, em todo o país, na rua, a reclamar, a recusar, a exprobrar. Também na altura o povo se levantou para acudir ao país. E são tais as semelhanças que deixo aqui um excerto da Crónica de D. João I e um outro retirado do jornal O público de hoje.
A gente começou a juntar-se a ele, e era tanta que era estranha cousa de ver. Não cabiam pelas ruas principais, e atravessavam lugares escusos, desejando cada um ser o primeiro. (...) E por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com vontade de o vingar, quando chegaram às portas do Paço, que tinham sido fechadas antes que chegassem, com medonhas palavras começaram a dizer (...)
Alguns bradavam por lenha e que viesse lume para porem fogo aos paços e queimarem o traidor e a aleivosa. Outros teimavam pedindo escadas para subir acima, para verem que era do Mostre. E em tudo isto era o tumulto tão grande ,que se não entendiam uns com os outros nem determinavam cousa nenhuma. E não somente era isto à porta dos paços, mas ainda em redor deles, por onde quer que coubessem homens e mulheres. Umas vinham com feixes de lenha,, outras traziam carqueja para acender o fogo, pensando queimar com ela o muro dos paços, dizendo muitos doestos contra a rainha.
As grandes multidões em sintonia comovem-me, são um foco de luz. Todos aqueles cartazes que costumava analisar na aula de História parecem ter voltado à vida. Se estivermos com atenção, conseguimos ouvir a Vieira da Silva bradar: a poesia está na rua. Mas, então, por que carga de água me sinto tão expectante, tão pouco poética? Se eu conseguisse ao menos entrever o novo mestre de Avis?
Crónica de D. João I
Milhares de pessoas saíram hoje às ruas em várias cidade do país e transformaram o Protesto Geração à Rasca numa manifestação de todas as idades, todos os grupos, todas as palavras de ordem. A organização fala em 200 mil pessoas em Lisboa e 80 mil no Porto. A PSP admite 100 mil e 60 mil.
(...) o desfile começou de forma discreta, mas pessoas de todos os quadrantes políticos, da extrema-esquerda, à extrema-direita (embora sem políticos conhecidos presentes), de todas as idades, muitos reformados, muitos pais com crianças na mão e vários movimentos de cidadãos juntaram-se ao protesto.
O desfile foi animado por palavras de ordem como "com precariedade não há liberdade", "fora com os ladrões" e "Portugal, Portugal, Portugal".
O desfile foi animado por palavras de ordem como "com precariedade não há liberdade", "fora com os ladrões" e "Portugal, Portugal, Portugal".
Jornal O Público
As grandes multidões em sintonia comovem-me, são um foco de luz. Todos aqueles cartazes que costumava analisar na aula de História parecem ter voltado à vida. Se estivermos com atenção, conseguimos ouvir a Vieira da Silva bradar: a poesia está na rua. Mas, então, por que carga de água me sinto tão expectante, tão pouco poética? Se eu conseguisse ao menos entrever o novo mestre de Avis?
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