Há uma certa poesia em cada aldeia portuguesa, uma poesia triste e saudosa. Não há gente para fazer o futuro, as casas vão-se entregando à natureza e esta, sempre à espreita, vai tomando o lugar que há anos o homem lhe tirou. Ficam os muros que ainda se vislumbram por entre plantas ávidas de os cobrir, confusas, selvagens, serpentes que a cada dia ganham vida enroscadas nos caibros de madeira que ainda vão ficando de pé, suplicantes. Tudo se entrega, as casas insolentes que pareciam invencíveis tornam-se agora tão tristemente frágeis, magoadas deste abandono. Alguns vestígios de cor nas portas e janelas lembram conversas trocadas, movimento, olhos à espreita, gente que quase se vê lá dentro. Nas janelas, finalmente entregues às teias de aranha, oiço vozes, risos, bancos arrastados, mulheres nos "mochos" ao lume, talheres a tilintar na mesa de madeira maciça com três gavetões, o ralhar doce da mãe a endireitar a casa e a servir a ceia, e a voz do pai a juntar-se à da mãe. Antes de dormir, o irmão mais novo reza o terço, agradece a Deus. Depois, o silêncio.
Um comentário:
Eu sabia que tu escrevias bem, mas agora ao ler com regularidade os teus comentários e dissertações ainda me parece que escreves melhor.
Este fim de semana comentaram-me, um dos teus seguidores, que além de teres "jeito" para o blog o facto de escreveres muito bem contribui consideravelmente para que ele seja mais interessante.
Continua, é um prazer passar por lá.
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